Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

O (meu) Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

Domingo, Janeiro 13, 2008

Ela sorria ao som melancólico da bateria que rufava no vinil riscado no leitor da sala de estar.
Abanava a cabeça no sentido dos ponteiros do relógio, como se quisesse dar algum sentido específico ao momento.
Sorria... Sorria desalmadamente, como se o o maxilar estivesse preso e não conseguisse livrar-se daquela expressão.
As memórias invadiam-lhe o cérebro à medida que corria em círculos, movendo o tronco e soltando os braços ao longo do mesmo rodopiar enlouquecido.
Soltou uma gargalhada funda e rouca, que clareava com o aumento da velocidade das suas voltinhas em torno do sofá.
Lançou as partes em movimento e caiu estática no chão, relembrando o intenso sabor de estar viva.

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

Primeiro sono de 2008

Depois de uma fabulosa passagem de ano, com pessoas muito importantes para mim (apesar de nem todas estarem presentes) e de uma noite sem dormir, decidi fechar os olhos e deixar que as gotas furiosas que batiam na janela me adormecessem.
Foi uma noite agitada, sem dúvida. Mas, ao acordar, senti aquele sentimento rejuvenescedor, que se calhar se apodera de todos nós, num primeiro impacto com o último número da data. (já não me lembro do primeiro dia do ano passado...)
Tomadas novas resoluções e tidas novas certezas de mudança, capacitei-me da vontade repentina de estudar (apesar de saber, conscientemente, que o primeiro exame será "um caso perdido", apenas consumado em Fevereiro).
Por isso, a quem se encontra na época deles, desejo um óptimo estudo. Para os restantes estudantes, aproveitem bem a fase do "não fazer nenhum" e, para os trabalhadores, que o empenho seja fresco e reconfortante ao final do mês.
E é isto... Apesar da castração imposta pela nova lei do Tabaco, pela subida exponencial dos Impostos e pela informação de que a TVI terá novos programas de entretenimento (oh não!...), estou muito entusiasmada comigo mesma, o que é meio caminho andado para um 2008 fenomenal!

Fotografia de Scoya @ primeiro dia do ano